Reminicências

Dia desses, conversando com colegas sobre nossa adolescência, além de ter lido no blog do Philipe suas peripécias de criança, comecei a lembrar de coisas da minha, onde os apuros faziam parte da nossa vida.
Lembram de um e-mail que circula com o título “Como eu sobrevivi?”. pois é, era assim mesmo e, apesar disso, cá estamos nós.
Bem, vou contar uma história que aconteceu lá pelos idos de 1970, então com 13, 14 anos, na histórica cidade de Pinheiro Machado no Rio Grande do Sul, porém não citarei nomes por não ter a autorização deles.
Haveria uma apresentação da famosa banda do Colégio Gonzaga, na época uma das campeãs nacionais dessa categoria, no parque rural da cidade, promoção do Lions Clube, do qual meu pai, que trabalhava em um banco, era membro.
Tal se daria por volta do meio-dia de um sábado. Para uma cidade pequena do interior, era um evento que não dava para perder. Mas… eu tinha aula.
Conversei com meu pai para não ir à escola naquele dia, porém não houve negociação, apesar de ser um CDF (naquela época).
Pois bem, fui à aula, saímos por volta das 11:00 e fui para casa, mas nem meu pai nem minha mãe estavam. pronto, já foram.
Andávamos muito a pé, pois era uma cidade pequena e não havia violência, portanto nossas necessidades eram satisfeitas a pé ou de bicicleta.
Mas eu queria ir ver a apresentação com o churrasco depois. Como? já que o parque ficava a alguns quilômetros do centro. Fui para a saída da cidade, na esperança de que o meu pai por ali passasse e me levasse.
Já quase meio-dia e nada, já frustrado pensando em voltar para casa, quando vejo um carro conhecido, um Regente, cujo proprietário era o gerente do banco onde meu pai trabalhava. Cidade pequena, todos se conhecem. Pedi carona a qual fui prontamente atendido, após as explicações de que havia me perdido do meu pai.
Entrei no banco de trás, junto com o vigário, que também estava de carona, além de ser meu professor de religião e história.
Então fomos. Eu não conseguia ver muito o que se passava na frente, pois devido ao meu tamanho de criança, o banco da frente inteiriço, só conseguia ver para os lados. E curva pra cá, curva pra lá, sobe e desce, de repente só vejo o vigário se jogar para cima de mim e não vi mais nada, apenas escutando barulhos diversos, sem entender o que estava acontecendo.
De repente aquele silêncio mortal. Quando recobrei a consciência, estava com as duas mãos no rosto, o vigário ainda jogado no meu colo e ouvindo uns gemidos, tando do gerente quanto de sua esposa que estavam no banco da frente. Tirei as mãos do rosto e aí é que me assustei. A mão esquerda completamente vermelha de sangue. O problema: de onde?
Limpei como pude nas calças e passei na fronte: nada; passei na testa: nada; então passei no olho esquerdo, aí veio o sangue.
Nessa altura já tinha certeza que estava ferido, mas o que fazer numa situação dessas? A primeira providência foi sair do carro. Vi que o banco da frente estava pressionando meus joelhos, então empurrei-o com os pés cuja ação fez com que ele cedesse e fosse para a frente. Saí do carro, não lembro se foi pela porta da frente ou a de trás, e tentei localizar onde estava. refiz meus últimos passos e me lembrei para onde estava indo. Porém, a frente do carro estava apontado para a cidade, olhei em volta e vi outro carro, uma Variant com o motorista desmaiado na direção, assim como a mulher no lado do carona. Também vi uma garota, talvez com minha idade do lado de fora cuspindo sangue. Mais uma observação e vi uma Brasília parada com as pessoas olhando todos com cara de apavorados. Dirigi-me para este carro e vi que o motorista também era conhecido do meu pai (cidade pequena, sabe como é). Resolvi pedir uma carona para a cidade. naquela altura já não queria seguir viagem.
Quando me aproximei da Brasília, uma mulher que estava no banco de trás me olhor com uma cara de terror e exclamou: Meu Deus!!.
Prontamente ela abriu a porta e me sentei. Fomos para a cidade, sob os olhares de um misto de perplexidade e horror. Só que o trajeto que eu pretendia era ir para casa, porém ele foi para o hospital que ficava na entrada. Ao começar a entrar no mesmo, ouvi o seguinte: Olha lá. É o Cauby (meu pai). Olhei em volta e avistei o fusquinha dele. nem parou o carro direito e eu já queria sair. Custei a achar o trinque no que fui ajudado pela minha companheira de banco e saí correndo ouvindo o motorista, que também já havia saído, gritando aos meus pais: “Olha, o Ricardo sofreu um acidente mas está bem”. Vi minha mãe descer do carro e, ao me olhar, percebi o susto, chegando a quase desmaiar no que foi amparada pelo meu pai.
Refeito o susto fomos ao pronto socorro. Fui examinado e aí é que fui perceber que, mesmo fechando os olhos, o esquerdo continuava enchergando, pois minha pálpebra havia sido rasgada pelo cinzeiro que havia no banco da frente, necessitando levar pontos.
Com a notícia de um acidente daquele porte, coisa rara em cidade pequena, o pronto socorro foi invadido por um vai e vem de médicos e enfermeiros, e me pediram para aguardar, pois havia pessoas com problemas muito mais graves do que o meu.
Resumindo o final, levei três pontos na pálpebra mais um curativo que tomou praticamente a metade esquerda de meu rosto e fomos para o evento, ainda a tempo de comer alguma coisa.
Soube depois que no carro em que eu estava houve apenas ferimentos leves, o maior problema foi no outro carro, em que o motorista teve vários problemas de saúde, e a mulher, que estava grávida, e perdeu o bebê.
A cena mais cômica de tudo isso deu-se na segunda-feira, na aula. Eu com aquele curativão e o vigário com a perna inchada também com curativo. Agradeço a ele até hoje por ter me salvo a vida, pois se não fosse ele se jogar em cima de mim, eu teria voado do carro.